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Esses caminhos sozinhos, de asfalto cru. Nu. Espostejado.
Essas limalhas pontiagudas nas solas, semi-diluídas nas veias pelos anseios enrustidos.
Enrustidos, perenes, crônicos e calados.
Envolvidos pelo entusiasmo criador e realista, quase não se percebe. E não dói.
Há um bloqueio para o viva voz ainda ligado. E mudo. Mudo ou quase nada.
Quase mudo.
Ou quase nada.
Bater perna na Liberdade sempre é um grande problema pra mim. Geralmente, ocorre um fenômeno insuportavelmente desagradável: meus hãs triplicam consideravelmente. Vou passar na Santa Efigênia onde eu “encontro muita informação tecnológica e tudo em eletrodomésticos” pra ver se acho algum rádio de comunicação fixo, móvel e portátil (com surround) para pequena, média ou longa distância, para cooperar com a cambada de japas que tentam comunicação.
Hirofumi Ikesaki vai ficar feliz.
Eu.

O morno é monótono. É a chatice veemente. È o “tudo bem” no começo da conversa. Se existe um inferno, ele deve ser morno. Provavelmente, 25º C – temperatura ambiente. Aí não se quebra a cara. Não se enlouquece nem se mistura. Não tem estado de saturação, são simplesmente as coisas no ponto certo. Chatas e repetitivas. É quase o ponto de liga, faltando um pouco de farinha. Não tem a audácia do tesão. Tem o aconchego cacete que é sempre favorável aos bons costumes (o comodismo barato, ou a regalia advinda de uma vida que segue normas da ABNT). Tem esse passo lento e doloroso que se assemelha a rotina de assalariados-pais-de-família e prato lacto-vegetariano. Não está tudo bem. Preferia uma bomba nuclear na minha cabeça, do que essa sensação de um dia nublado num fim de tarde de quarta-feira. A vida morna é uma música da Adriana Calcanhoto numa rádio FM. É a o carro andando a 60 km/hora às 10 da manhã. É banho de neném. É comida sem sal. É neutro. É um copo de água sem gelo no verão de Santos: incolor, insípido, inodoro e horroroso. É a página inicial da internet em “about:blank”. E eu senti falta de ar, sem entender o porquê. Eu esqueci de respirar. Simplesmente achei que não precisava mais. E experimentei lentamente essa coisa de fazer o ar entrar pelas narinas lentamente contando até oito, prendendo até quatro e soltando em oito e mais quatro no vazio. A primeira sensação foi animadora. Conseguir encher os pulmões depois de tanto tempo. O fôlego que tinha acabado, andava junto com uma certa indisposição generalizada. E descobri que é quase tão bom quanto o cachorro quente de rua da esquina da Teodoro Sampaio. Eu tenho lá meus méritos por isso.
Mas eu preciso de um compasso apressado no fim de tarde, e vou aproveitar o oxigênio inalado e recém-transformado em ATP para tomar uma última dose hoje e ver se acabo logo com isso. Eu tenho estômago para tanto. Eu sei. Mas pra mim,sempre parece que lá fora ta frio. Ta muito frio e eu não consigo tirar os meus pés do chão - questão de sobriedade demais e falta de lentes côncavas na frente dos olhos. Nada de distorções ou lamúrias não. É que ando com receio dessa inação prematura e dos peixes que não morrem. Eu caminho até a cozinha e sinto um frio, misturado com uma vontade me esconder cada vez mais. Eu fico tentando lembrar o que é que tenho para fazer, mas não consigo nem lembrar onde é que guardei (escondi) meu frasquinho com pílulas para memória. Não sei como contornar essa vontade irremediável de dormir sem parar. Essa vontade de me enfiar no armário. As coisas que não empacam continuam andando em seu ritmo quase insignificante e enquanto as empacadas jamais pensam em sair do lugar. E eu sinto sono e tenho a palma das mãos frias. Sempre geladas. Às vezes parece que eu morri.
Como fazer uma mula 50% surda escutar claramente uma música: tridimensionalidade surround...
Os trompetes de Wynton Marsalis gritando e eu lá... feliz da vida e babando no meio de tudo.
Vida longa ao Aiwa
Como se tornar um bom escritor - Charles Bukowski
Você tem que foder muitas mulheres, belas mulheres
E escreva alguns poemas decentes de amor.
E não se preocupe-se com a idade e/ou talentos recém-chegados.
Somente beba cerveja
Mais e mais cerveja
E vá a corrida de cavalos ao menos uma vez por semana
E ganhe se possível Aprender a ganhar é difícil - qualquer idiota pode ser um bom perdedor.
E não esqueça seu Brahms, seu Bach e sua cerveja.
Não se exercite demais.
Durma até lua aparecer.
Evite pagar cartões de crédito ou qualquer outra coisa em dia
Lembre-se que não há um rabo nesse mundo que custe mais que cinqüenta dólares (em 1977).
E se você tem a capacidade de amar, ame a si mesmo primeiramente, mas esteja sempre consciente da possibilidade do fracasso total. Não importando se a razão desse fracasso pareça certa ou errada
Um gosto prematuro da morte não é necessariamente uma coisa ruim.
Mantenha-se longe de igrejas, bares e museus.
E, como a aranha, seja paciente - o tempo é cruz de todos, junto com exílio, fracasso e infidelidade
Todo esse lixo.
Fique com a cerveja. Ela é sangue contínuo. Uma amante contínua.
Consiga uma máquina de escrever grande e enquanto passos sobem e descem frente a sua janela,
Bata nessa coisa, e bata com força
Faça disso uma luta de pesos-pesados, como o touro em sua primeira investida
E lembre-se dos velhos cães que lutaram tão bem: Hemingway, Celine, Dostoievsky, Hamsun. E se você pensa que eles não enlouqueceram em quartos minúsculos exatamente como você agora, sem mulheres, sem comida, sem esperança
Então você não estão pronto.
Beba mais cerveja.
Ainda há tempo.
E se não houver, tá tudo bem também.

Os passarinhos resmungam gentilmente às 6 da manhã na minha janela, e pela primeira vez - em muito tempo - eu não penso em tiro ao alvo. Porque ontem, apenas três cervejas bastaram. Isso é bom e faz uma diferença danada. Gera uma mudança de vícios. Exclusão social não é uma atividade exclusiva do processo de interiorização das famílias ribeirinhas do Tietê, Piracicaba e Paranapanema. Muito menos é um costume destinado aos babacas sociais. Por ventura, esse “desvio de conduta” também é percebido nas comunidades alienadas e ribeirinhas de botecos do centro da cidade. Temporariamente. E hoje dei conta que essa estratégia inconsciente de tomar a linha é inerente a qualquer um. Principalmente sobre essa gente que não se oprime. Ou pelo menos não se sente assim. E de repente, como num susto, cria uma expectativa estranha de si mesmo, e paira apenas uma vontade de deixar as gavetas arrumadas e a cozinha limpa, em “ordi”. É uma necessidade de botar a loucura para dormir enquanto as coisas se ajeitam numa ordem cheia de miudezas gratificantes. E deliberadamente, troca a mesa de boteco por uma sala limpinha para descansar em paz. O domingo é tomado por uma sensação de um dia sagrado e o almoço em família se torna real, com direito a lula provençal, cação ensopado e mousse de maracujá. E três garrafas de vinho para não desvirtuar tanto assim.