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Puta hotel chique... que coisa mais engraçada. Lugares assim me dão vontade de rir. Alto. Mas eu me controlei como pude. Era show do Fabio e do Ivan Márcio lá no Hitz e eu fui para ajudar a beber cerveja e fazer um estágio de 3 entradas de 40 minutos. Não dava pra faltar, questão de honra e disciplina. E no meu relatório, segue a palavra que resume tudo: Ducaralho. Bem óbvio mesmo. E não me venham pensar que o elogio veio só porque o cara é meu namorado e tudo mais, por favor... O som foi foda mesmo. Pra começar nunca tinha visto um cara fazer base com gaita para um solo de guitarra e isso foi só uma das coisas que me impressionaram por lá. Aliás, foi uma pena esse som ter sido feito para meia dúzia de hóspedes que resolveram dar uma descidinha para tomar um drink antes de dormir. Quer dizer, isso com exceção de uma garotinha argentina que morava em Chicago que pirou no som dos caras e obrigou a mama dela a subir no quarto e buscar sua “guitarrita” para dar uma canja com os caras. “Lacucaratcha, lacucarathca...” mais alto que o vocal do Ivan Márcio. Um inferno. Mas tudo bem. Eu lá sentada, brincando com a criança e vem a primeira cerveja. Uma porção de sementinhas e eu não sabia se aquilo era cobrado. Preocupei-me. Pergunto pro garçom japinha discretamente quanto valia aqueles grãos e ele me garantiu que era de graça. Rindo. Fiquei feliz. Pobres se reconhecem... E depois eu percebo uma garota fazendo promoção de Ballantine’s rodiando por ali. Depois de muito resistir, parou a meu lado falando da grande promoção da dose - só para constar, no cardápio, água Perrier (não tinha lindóia nem cristal) à R$7,00 – imagine só a promoção da dose da bagaça. Anyway, eu, segurando o riso sem muito sucesso, digo “não obrigada”, e ela ri junto. O riso teve um crescente de ambas as partes quando ela me falou da promoção da garrafa, e quando eu, quase caindo da cadeira, disse sem pestanejar que “hoje não, mais uma vez obrigada”. Ela saiu e não chegou mais perto. Ao contrário da criança, que queria sentar comigo no balcão enquanto eu queria prestar a atenção no solo do Ivan... Mas foi isso e foi bão. Muito bão...
Ta friozinho, não é?
Segunda acordei com café na cama. Torradas, chá de jasmim e uma paz quase incompreensível. As tardes têm sido boas e com muito ar para respirar. Isso me acalma. E ontem acordei bem novamente... mas com fome, e sem torradas. Dia de Frente Fria conforme a agenda da mostra do cemitério e a previsão do tempo. Isso sugere biquínis, e eu me lembro do número 57 na balança e da injustiça dos 10º à noite. Tento me esquecer de tudo isso enquanto espero a companhia de Paulinha Picanha para o trato no cabelo. Cousa linda! Saio de casa e corro para o Centro Cultural com os cabelos chapinhados e uma vontade imensa de comer uma panela cheia de miojo com papinha e ovo. Mas ao invés disso, tomei uma xícara de café e acendi mais um cigarro. Passei o dia inteiro sem comer nada. Sem mastigar um grão de arroz para o figurino entrar. Um cú: só café, papinha e um suco de morango, e o figurino entrou como uma luva. Fiquei contente. A tarde com o elenco, e o tesão de apresentar de novo este espetáculo compensou e me fez esquecer temporariamente a fome que eu sentia. Mas meu estômago estava colado na espinha ao final da peça e eu precisava sair correndo para comer e pegar minha carona até o Aurora. Mas mesmo assim eu não agüentei e caí no Cultura. Ao invés de comprimentos, me sugeriram uma bela dieta, e eu, ao invés de explicar, fui embora correndo para não precisar falar ou ter que escutar o final. E foi bom. Delicioso! Finalizado com champanhe e sanduíche natural. O frio passou, e eu não senti. E terminei a noite, deitada na mesa, na companhia de pessoas maravilhosas e de frente uma garrafa de vinho seco. Sonhando com miojos ao som de trilha sonora.
E depois rezei ao som de violinos na igreja São Bento para afastar os malditos ursinhos.
Porque é uma merda. Eu tenho problemas que infelizmente são absolutamente meus e não dá para escapar assim tão facilmente. Não dá. Vem de lá de trás. Desde menina, sempre fui aquela coisa tosca, grande e cagada que foi enfiada a contragosto naquele maldito apartamento da rua Cásper Líbero, onde era incansavelmente submetida às intermináveis tentativa dos pais em enquadrar a filha bronquiteira na rodinha de meninas meigas que brincavam no escorregador com medo e adoravam mais que tudo seus ursinhos petutinhos. Eu não conseguia achar graça em nada daquilo e era jacú. Torta e estabanada pelo tamanho incompatível com a idade. E sempre comparada com a irmã que era uma princesinha, eu ficava para trás na competição. Pernas tortas (sim, nasci com as pernas em forma arco, que renderam diversas noites em branco à minha mãe que era obrigada a massageá-las, no intuito de me consertar – ela conseguiu mais ou menos), gorda, cabelo ruim, mal humorada e mal educada. Eu era uma menina má que foi gerada como presente de aniversário de grego à minha irmã mais velha, que se arrependeu logo em seguida. E depois de notarem que trocaram gato por lebre, e de perceberem que o material não poderia ser devolvido, eles sacaram que a única saída seria tentar se sentir mais à vontade com aquela pseudo-menina que colocaram no mundo, e tentaram as mais diversas e excêntricas saídas: homeopatia, tai chi, natação, surra de pano de prato molhado e simpatia da velha gorda da casa amarela da esquina. Nada deu muito certo não. Eu continuava ali, dormindo em baixo do guarda-roupa, chutando brinquedos, crescendo cada vez mais rápido que minha irmã e batendo nos meus coleguinhas de escola. Uma menina matusquela. Me chamavam de “pernóstica”, “destrambelhada”, “grotesca” “filha de qualquer coisa” e me pagavam em moedas pequenas (que eu juntava para comprar cigarrinhos de chocolate) para andar direito, sentar com a coluna reta, falar mais baixo e assim por diante. Sempre fui comparada a minha irmã que sempre serviu de padrão exemplar em tudo para eles. Notas, educação, tamanho, ombros, cabelo, tom de voz, tudo! E eu ali, toda errada, me perguntava o que tinha de tão censurável em mim que eu não conseguia mudar e entrei numa parada maluca de querer mutilar tudo que estava a minha volta. Xingava alto, quebrava as coisas, arranhava meu braço e saia na rua sem autorização.. Tava tudo errado, e logo depois, eu resolvi me trancar. Eu não conseguia mais suportar aquela merda toda e me fechei num lance de brinquedos velhos e potes de nescau cheio de palitinhos de sorvete que eu catava na rua. Detestava meus coleguinhas e apreciava muito barulhos de lig-lig nos tacos de madeira. Era assim, e isso me frustrava. Eu olhava as menininhas da minha idade, todas bonequinhas e meigas e me sentia mal. Me sentia muito mal, porque eu nunca consegui ser como elas. Minhas limitações estavam escancaradas além da chamada maldita delicatesse feminina e eu tinha que contar com uma fórmula mágica para mudar o imutável da estatura óssea e do timbre de voz que me foi presenteado pela maldita genética mendeliana. Eu sinceramente não sabia (e ainda não sei) de onde vinha aquela porra. Não consegui - e não consigo - corresponder às expectativas de ninguém. A coisa não mudou, e eu saí de casa. Nisso, no escritório em que trabalhava, o problema voltou. Forte. Dessa vez eram as minhas unhas, meus cabelos, meu olhar e mais uma vez, minha postura e meu tom de voz. Deve ser essa porra que todo mundo chama de karma. E isso, eu carrego comigo e só me fodo consideravelmente por não conseguir ser meiga, pequena e feminina o suficiente. Meu tom de voz e a posição da minha cabeça em cima do meu pescoço incomodava muito uma senhora “meiga”, “educada” e de ombros curtos que trabalhava comigo e me acuava com discursos éticos classudos. Ela era uma dama e eu, uma vagabunda destrambelhada e mal arrumada. Ela sentia vergonha dos engenheiros que chegavam no escritório e me viam com o único casaco verde que tinha - ele era realmente horroroso, mas como eu gostava daquela merda. E me infernizou tanto, que eu tive que me forçar a engolir sapos, baixar a cabeça (para não perder o emprego) e me endividar no cartão da C&A para me vestir melhorzinha. Ou para ela se sentir melhorzinha, sei lá. Isso me rendeu uma bela duma síndrome do pânico que não sabia onde enfiar, e mais uma vez, tiveram que me mandar de novo para o conserto. Mas dessa vez, a melhor coisa que me aconteceu foi ter rido dos meus únicos copos espatifados na parede que me fizeram enxergar o quanto essa merda tava errada e o quanto eu tinha que mandar toda essa merda à merda. E mandei. Hoje eu sinceramente não penso mais em nada disso, até que me lembrem do passado tosco. Estranho. Essa história toda de precisar ser meiga, ter ombros curtos e voz fina já me é familiar. Eu deveria estar acostumada com isso, mas ainda não estou. E me sinto muito mal por isso.
Começou. Já faz um tempo, mas só agora to postando. Negligente no blog e com ódio de internet. É por isso. Foi por isso. Tem sido por isso. Não agüento mais ligar o computador. Isso tem me dado dores abdominais e eu ainda não descobri o porquê.
Tenho vontade de me sentir afastada disso.
Mas não do Centro Cultural São Paulo. Lá é onde tem rolado a Mostra de Férias do Cemitério de Automóveis. No cartaz, mostra: 12 peças e 48 atores. Eu no meio. Eu e mais 47. Gente pra caramba. Peças fudidas e bar cultura. Não dá pra perder. E no final, ainda dá pra perguntar “de quem é aquela música da peça” pro Marião. Eu não pergunto, mas quem se sentir motivado, sintam-se a vontade e descubram o porquê do meu silêncio.
Apareçam e apreciem sem moderação.

- Ta ouvindo?
- O que?
- Nada. Faz tempo que não escuto isso.
Isso se não fosse o cachorro latindo a quilômetros de distância. Distante horizontalmente falando é claro. Porque Campo Grande é uma cidade achatada e comprida. Prédios, só no centro. Assim como os carros, carros, carros e carros. Calor. Frio. Calor. Frio. Calor. Frio. Eu estranhei. Lá tem Geraldo Espindola (lindamente corrigido). Tem araras. Vacas, vacas, vacas. Ruas de terra, mato, mandioca, formigas, Marcelo Rezende e suas histórias habilidosas, pastel de carne, de queijo, de tudo quanto é jeito. Tem rio. Mato, mato, mato. Tem uma feira que vende chapinha a R$30,00 e um monte de chácaras. Chácaras que te derrubam no barranco. Gente calma, bacana, bonita, receptiva, familiar. Gente que te trata como gente. Gente que sabe ser gente. Gentil. Que te serve churrasco com mandioca e te oferece coca gelada nas tardes quentes. Chá quente nas noites estreladas e frias.
Lá é assim: te lava a alma e te faz observar passarinhos.
Sem mais nem menos.